• Global
  • Video
  • Gallery
  • World News
  • Sports
  • Navigation

    Léa Campos - Primeira árbitra no futebol brasileiro relembra o começo e as dificuldades na carreira

    Foi preciso superar a Ditadura Militar, a série de detenções no DOPS, uma CBD (antiga Confederação Brasileira de Desportos, precursora da CBF) contrária a sua atuação e também o preconceito da própria família. Mas Léa Campos seguiu adiante e tornou-se não só a primeira árbitra brasileira profissional, mas também - que se tenha conhecimento - a primeira mulher no mundo a apitar um jogo de futebol. Ela fez história. Foi pioneira. Hoje com 70 anos, mora em Nova York, nos Estados Unidos, e acompanha o futebol de longe. Sempre que pode, vai a eventos e dá palestras, normalmente a convites de terceiros. Tenta se manter engajada, com as limitações que a idade e o corpo lhe dão.

    Asaléa de Campos Micheli nasceu em 1945, na cidade de Abaeté, em Minas Gerais, em uma época em que as mulheres eram proibidas por lei de praticarem esportes "incompatíveis com as condições de sua natureza". Mudou-se para Belo Horizonte aos três anos de idade. Antes de vir a se relacionar diariamente com o futebol, Léa participou de uma série de concursos de beleza. Venceu um por um. Foi Rainha do Carnaval, Rainha do Exército, Rainha do Cruzeiro Esporte Clube... E foi aí que passou a se envolver mais. Em 1966, tornou-se relações públicas do Cruzeiro. Passou a viajar com o time, a divulgar projetos do clube em escolas e pela cidade, a acompanhar as partidas. Porém, não era isso o que Léa queria. Ela queria muito mais.

    – Naquela época, não sabia o que acontecia dentro do campo de jogo, não entendia muito bem. Xingava o juiz, por exemplo, porque os outros também estavam xingando. Perguntava muito para o meu namorado. Passei, então, a querer entender de futebol, algo pelo qual me apaixonei – conta.

    "Fui presa várias vezes por causa do futebol feminino. Levavam-me para o DOPS, diziam que eu estava fazendo terrorismo, subversão. E tinha de me explicar dizendo que o que fazia era apenas uma forma de distração. Nunca obriguei ninguém a nada, vai quem quer, só o que queríamos era jogar futebol".

    Foi então que surgiu a vontade de virar árbitra – nunca a teve de ser jogadora. Pela Federação Mineira de Futebol, estudou por oito meses na Escola de Árbitros do Departamento de Futebol Amador no ano de 1967. Na hora de receber seu diploma e a validação na profissão, no entanto, acabou tendo-o bloqueado pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que seguia o decreto-lei nº 3.199, em seu art. 54, de 1941, que dispunha que "às mulheres não se permitirão a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". Ela foi regulamentada pelo Conselho Nacional de Desportos (CND) em 1965, com o complemento de que "não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e baseball". Assim, segundo Léa, seguiu-se uma batalha por quatro anos para que pudesse trabalhar sem qualquer impedimento.

    Em época de Ditadura Militar no Brasil, Léa foi acusada de subversão. Nos cálculos dela, foram 15 as vezes que foi detida e encaminhada ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) para "dar explicações".



    – Fui presa várias vezes por causa do futebol feminino. Levavam-me para o DOPS, diziam que eu estava fazendo terrorismo, subversão. E tinha de me explicar dizendo que o que fazia era apenas uma forma de distração. Nunca obriguei ninguém a nada, vai quem quer, só o que queríamos era jogar futebol. De tanto ir à delegacia, acabei até ficando amiga do delegado. Acabava ficando 10, 15 minutos lá, e ele me liberava. Apesar disso, nunca fiquei registrada como terrorista, minha ficha sempre foi limpa – explica.

    O ENCONTRO COM MÉDICI
    Apesar das dificuldades, Léa seguiu adiante. Sua redenção veio em 1971, quando recebeu um convite da Fifa para apitar um torneio amistoso e mundial de futebol feminino no México. Para poder ir, no entanto, precisava ter a autorização da CBD, algo que, a julgar pelos últimos quatro anos, não iria acontecer. Léa, então, foi além. Solicitou uma reunião com o comandante do país na época, Emílio Garrastazu Médici.

    Por ser Rainha do Exército de Minas Gerais, tinha bom relacionamento com os comandantes. Foi a um deles que Léa pediu ajuda para encontrar Médici durante uma das passagens do presidente pelo estado. Com muita insistência, a solicitação foi aceita. E Léa teve três minutos para falar com Médici no hotel onde ele estava hospedado, em Belo Horizonte. 

    Disse, então, a ele: "Quero que você ordene ao João Havelange (então presidente da CBD) que libere o meu diploma para que possa representar o Brasil e apitar no Mundial de Futebol Feminino no México." Ele escutou e respondeu: "Aqui está um cartão meu. Você almoça comigo na segunda-feira, em Brasília. E tenho uma surpresa para você" – relembra Léa.

    Foram mais dois dias até o encontro de puro nervosismo.
    – Estava com muito medo. Era Ditadura Militar, e eu estava indo contra o sistema. Como diz a expressão, "estava dando murro em ponta de faca". Tinha medo de ser presa, de ser desaparecida, de aparecer em algum lugar de Brasília com formiga na minha boca… O encontro em Minas foi na sexta-feira, e viajei a Brasília na segunda. Fui de avião, mas acho que preferia ir a pé, para demorar mais tempo até chegar lá.

    Nenhum dos temores de Léa se concretizou. Muito pelo contrário. Ela foi recebida na Granja do Torto e teve o almoço com Médici, que se mostrou solícito. Entregou-lhe uma carta de próprio punho com a solicitação para que Havelange liberasse o seu diploma, consequentemente a sua viagem ao México para apitar. 

    E a surpresa? Tratava-se de um "fã-clube" dentro da própria residência oficial. Um dos filhos de Médici – Léa não se lembra qual deles, se Sérgio ou Roberto Nogueira – tinha uma vasta coleção de revistas, recortes de jornais e fotos da árbitra.

    Ele tinha mais coisa guardada do que eu mesma! – lembra.
    Com o documento em mãos, Léa viajou no mesmo dia para o Rio de Janeiro, a bordo de um avião das Forças Armadas Brasileiras, para encontrar-se com João Havelange. Datava 19 de julho de 1971, um dia após a grande despedida de Pelé da seleção brasileira no Maracanã – um empate por 2 a 2 com a Iugoslávia. Mesmo após o fim da partida, a imprensa de todo o país e algumas do mundo ainda se encontravam na cidade.

    Léa contou com a ajuda de um jornalista mineiro, um amigo que trabalhava na CBD, para convencer Havelange a recebê-la. "Acho bom você recebê-la, porque ela tem uma carta do Médici", teria dito o amigo ao dirigente, que acatou a sugestão. 

    – Entrei na sala e ele nem me ofereceu para sentar. Fiquei lá parada enquanto ele lia a carta. Ao acabar, disse: "Chama a imprensa que vou fazer uma coletiva." Ele me ferrou por quatro anos, mas, na hora do discurso, enfatizou que o Brasil, enfim, teria a primeira árbitra do mundo, que seria na gestão dele, que era com muita honra que ele apresentava a notícia... Ok, agradeço a ele. Graças a isso pude dividir as manchetes dos jornais com o Pelé! – conta Léa, que, enfim, teve seu diploma liberado e pode apitar suas partidas.

    O JORNALISMO ESPORTIVO
    Antes de iniciar na arbitragem, Léa Campos cursou faculdade de jornalismo. Optou por especializações no esporte e na política. Foi no início da década de 1960 que a futura juíza se arriscou no mundo do rádio. Da mesma forma que o faria anos mais tarde, Léa também quebrou barreiras na área comunicação.

    Na época, as coberturas esportivas aconteciam de maneira diferente. Não havia assessores de imprensa e entrevistas coletivas previamente organizadas. Ao fim das partidas, por exemplo, era permitido ao repórter entrar no vestiário e conversar com o jogador que quisesse – hábito que perdurou até a década de 90. Muitos dos atletas, porém, andavam nus pelo local, o que seria normal para os outros homens. Não para uma mulher.

    Segundo Léa, alguns dos técnicos com quem trabalhou não queriam deixá-la entrar nos vestiários. O que, para ela, era inaceitável. Ela lutou. E venceu.

    – Fazia parte da equipe de transmissões de jogo para as rádios. Alguns técnicos não queriam me deixar entrar no vestiário. Ué, qual o problema? Perguntava a eles: "Existe algum homem aí dentro que é operado e não é mais homem? Ou existe alguma mulher aí dentro fazendo o que não deve?". Ora, estou exercendo a minha profissão! Eles estavam me impedindo de exercer o meu trabalho. Mas depois eles se acostumaram… – relembra.

    Durante todo o período em que trabalhou com o esporte, especialmente no período da arbitragem, Léa não recebeu o apoio da família.

    – As mulheres da minha família nunca me apoiaram. Os homens, sim. Mas as mulheres diziam que eu estava em busca de um jogador rico, que eu devia estar em casa, fazendo comida, lavando a roupa. Minha maior decepção foi essa. As mulheres deveriam apoiar umas às outras – afirma.

    OS JORNAIS DA ÉPOCA
    Léa também não contou com o apoio de seus colegas jornalistas. Apesar de ser destaque e motivo de notas e matérias em todos os principais jornais do país, ninguém abraçou a sua luta. Muito pelo contrário. O tom dos escritos era preconceituoso. Tratavam a mulher no futebol como uma espécie de aberração, uma atração circense. 

    Sua briga, desde 1967, quando fez o curso de arbitragem em Minas Gerais, até depois de sua liberação, foi acompanhada de perto pela imprensa brasileira. Sempre que Léa vinha a apitar um duelo, lá estava a nota nas páginas afirmando que ela seria "atração". Afinal, que coisa mais diferente uma mulher metida nos campinhos. Dizia o Diário da Noite, de São Paulo, em 5 de abril de 1971:

    "Imagine, uma mulher de apito na boca, calção, meias e chuteiras, dirigindo uma partida de futebol. Não se assuste, isso vai acontecer no sábado que vem (...). Léa Campos, mineira, diplomada pela Escola de Juízes da Federação Mineira de Futebol, será quem apitará o jogo dos meninos."

    Durante anos, mesmo depois de liberada sua atuação e tendo apitado jogos pelo Brasil e até fora do país, seguiu-se um impasse entre a juíza e a Federação Paulista, que insistia em não deixá-la apitar. O dirigente Álvaro Paes Leme dizia que o que Léa queria era "aparecer" e "se promover". Os jornais de então repassavam as informações da disputa aos leitores, não sem dar sua própria opinião sobre o caso. Afirmava o Diário da Tarde, do Paraná, na edição de 15 de janeiro de 1973:

    "A juíza mineira Léa Campos não pode dirigir o jogo entre cariocas e paulistas em benefício do jogador Alan porque Álvaro Paes Leme, diretor do DA paulista, não reconheceu o seu diploma, impedindo que ela apite em São Paulo. Léa, que já apitou inclusive fora do Brasil e é funcionária da Rádio Mulher, procedeu de maneira feminina, espinafrando a direção da Federação Paulista de Futebol, defendendo seus direitos de cidadã. Afinal de contas, não existe, em qualquer regulamento, a não ser os preconceitos naturais, que impeçam uma mulher de ser juiz de futebol. Faltaram apenas as sempre convincentes lágrimas de mulher. Mas Léa sabe que um 'chorinho' pode prejudicar sua imagem de disciplinadora de marmanjos." 



    CARREIRA INTERROMPIDA PRECOCEMENTE
    Mas três anos depois que Léa Campos conseguiu a liberação para apitar, foi preciso parar. Em fevereiro de 1974, um sério acidente de ônibus a tirou dos gramados. Quase tirou também sua vida. Em uma viagem pelo interior de Minas Gerais, quando se aproximava da cidade de Três Corações, o veículo onde se encontrava bateu na carroceria de um caminhão. Léa ficou presa nas ferragens. Quase perdeu a sua perna esquerda. Teve de reimplantá-la e realizar uma série de cirurgias. Ao total, foram 101 intervenções.

    Durante dois anos, foi preciso andar em uma cadeira de rodas, uma vez que não tinha forças para se locomover. E também para não exigir demais da já fraca musculatura da perna direita. 
    – Foram tantas as cirurgias que eu tinha um quarto só para mim no hospital (Felício Rocho, em Belo Horizonte). Tenho só a agradecer ao meu médico, o Doutor José Vicente Alves. Devo a ele por ter a minha perna hoje, pela paciência dele em lutar comigo – diz Léa.

    No processo de recuperação do acidente, a árbitra viajou algumas vezes para os Estados Unidos para fazer exames e tratamentos. Foi no país onde conheceu seu marido, o jornalista esportivo colombiano Luis Eduardo Medina. Em 2001, ele escreveu a biografia de Léa, chamada "As regras podem ser quebradas".

    Com a carreira interrompida dentro dos gramados, Léa dedicou-se apenas ao jornalismo, apesar de nunca tê-lo abandonado. Trabalhou em Brasília, na Rádio Nacional, e em São Paulo, na Rádio Mulher. Nos Estados Unidos, escreveu para os periódicos Gol Internacional e Noticiero Colombiano. Hoje, segue apenas como colunista da Brazilian Press, publicação feita em Nova Jérsei voltada para brasileiros que moram nos EUA. Ela escreve apenas sobre política.

    Leá trabalha ainda com produções de eventos em Nova York e realizou cursos de confeitaria e decoração de bolos no SENAC-SP e SESC-MG, ganhando até concursos com seus doces.

    O FUTEBOL FEMININO HOJE
    Longe do Brasil e sem ter mais tanto envolvimento com o esporte quanto antes, Léa Campos não acompanha tanto quanto gostaria o desenvolvimento do futebol feminino no país. Assiste ao que pode da Seleção. Estará na Copa do Mundo de Futebol Feminino deste ano, a ser realizada no Canadá entre os dias 6 de junho e 5 de julho. No entanto, seus olhos são mais voltados, hoje, à modalidade no local onde mora: os Estados Unidos.

    Ela vê de perto o desenvolvimento, os investimentos, a educação esportiva no país. Sabe a receita para se criar uma cultura vitoriosa no esporte. Porém, ao mesmo tempo, entende que o mesmo não funcionaria no Brasil.

    Nos Estados Unidos, acompanho muito futebol feminino. Aqui, o futebol é orientado dentro das faculdades. Antes, nos colégios. Os jogadores que vão se sobressaindo nas universidades, os clubes se interessam e compram os direitos do atleta para jogar pelo clube. Contratam os jogadores. No Brasil, isso não existe. Aí seria preciso que entidades esportivas, times profissionais e a CBF investissem no futebol feminino. E isso nunca vai acontecer – afirma.

    É com propriedade que Léa fala da falta de investimento na modalidade no Brasil. Em 1983, ela criou um time de futebol feminino em Minas Gerais. Organizou um campeonato regional para as mulheres. Durou apenas um ano. Tendo de bancar basicamente todas as despesas sozinhas, não teve como levar o projeto adiante.

    – Fiz a Copa Léa Campos, em Minas. A intenção era continuar fazendo todos os anos, mas não tive nenhum apoio. Banquei sozinha as viagens, tudo… Chegou a um ponto que não dava mais. Tinha o sonho de poder ter um campeonato regional em Minas. A final dessa Copa foi realizada no Mineirão, na preliminar dos profissionais de Cruzeiro e outro time que agora não me lembro. Isso desanima muito, porque você luta por um projeto e não deixam você seguir em frente – relembra.

    Com mais de 100 jogos apitados na bagagem, passagens pelos campinhos Brasil afora, além de Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Colômbia, Equador e México, indo desde campeonatos juvenis a amistosos e jogos profissionais, Léa Campos vê com certa bronca a atuação de algumas mulheres que comandam as partidas nos dias de hoje. Ou que comandaram. Uma delas é Ana Paula Oliveira, ex-árbitra e atual diretora-secretária da Escola Nacional de Árbitros de Futebol (ENAF). Em 2007, ela posou nua para a Playboy, o que Léa critica.

    A pioneira, aliás, crê que a nudez no esporte pode ser aceita apenas no caso de ser em prol de algo maior, como existem alguns jogadores, de ambos os sexos, que realizam ensaios e calendários sensuais para arrecadar fundos para seus clubes ou ainda para doações de caridade. Apenas por vaidade, não.

    – Em 1966, cheguei a ser convidada para posar para a Playboy Argentina. Mas recusei, pois esse não era o meu objetivo, não era o que eu queria. O fato de eu ter conquistado títulos de beleza não quer dizer que eu tenha de expor o meu corpo. Você pode ser bonita do jeito que for, mas não precisa tirar a roupa. O que sou contra é você usar o futebol como um trampolim para outras coisas. Se você quer ser árbitra ou bandeirinha, tem de focar nessas duas coisas. Se você quer ser modelo, então vá a uma agência de modelos. Uma coisa não combina com a outra - reforça, completando a defesa de sua tese: – No caso desses calendários, que visam a um bem maior, como doações a instituições de caridade, acho que está certo. Não é por vaidade. 

    Léa acredita que a exposição do corpo prejudica o trabalho feminino num campo ainda tão machista. No esporte, seja nos gramados ou no jornalismo, ainda se prefere olhar mais para a beleza da mulher do que para sua competência. Ela lembra que abriu portas em uma época tão conturbada, arriscou-se, brigou pelos seus direitos, mas que ainda há muito pelo que se lutar. 

    – Eu queria mostrar que a mulher podia exercer uma profissão dita masculina. Cheguei a um ponto em que me sentia na obrigação moral de seguir adiante, até onde fosse possível, até conseguir liberar a profissão. Aí vejo hoje, por exemplo, mulheres como a Ana Paula, tirando a roupa para posar para a Playboy… Eu lutei muito por isso. Abri uma porta para as mulheres que vieram depois de mim. Era o meu sonho ser árbitra. Lutamos, brigamos, batalhamos… E não medem você pela sua capacidade. Julgam você pela sua aparência. É isso que eles olham. Não veem que você ralou, o quanto você estudou, que você frequentou uma universidade, que se preparou para aquilo.

    Via G1
    Share
    Banner

    Deixe seu comentário