Foto: Arquivo Pessoal Jéssica
Jéssica Silveira é atleta do futebol, igualmente a outras meninas e mulheres sonhava em alcançar a oportunidade de jogar em uma grande equipe, objetivo que alcançou ao vestir a camisa do  Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, alcançou o sonho e descobriu a triste realidade que o futebol feminino enfrenta, falta de estrutura e orientações que permitam as atletas conhecerem o universo real do futebol feminino.

A cerca de dois anos afastada dos gramados Jéssica Silveira fez um desabafo na rede social Facebook  no dia 15 de outubro e conta o que tem passado após uma grave lesão:

Postagem de Jéssica


"Hoje é um dia muito triste pra mim, hoje está completando 2 anos da minha lesão (rompimento do LCA e do menisco ).

Era pra ser um sonho realizado, mas não foi assim, aquelas meninas amantes do futebol talvez me entendam outras talvez até estejam na mesma situação.

Foi em busca do meu sonho (jogar no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense ) mais uma e a maior das desilusões aconteceu.

Fui chamada pelo Grêmio pra fazer parte do elenco de 2017, era o começo do futebol feminino no clube, com grandes promessas, uma estrutura simples mas muito melhor do que de outros clubes que passei. Fui chamada com a proposta de uma ajuda de custa , que me ajudaria no custeio do transporte para os treinos, um plano médico (que nunca aconteceu ) e muitas promessas e cobranças. Não era nada justo pelo tamanho do clube mas o futebol feminino no Brasil e assim, pra tu jogar em muitos clubes e mostrar o teu valor, acabamos nos submetendo as essas coisas (quem ama o futebol feminino como eu vai entender)

Larguei meu emprego fixo pra fazer algo autônomo ( ninguém me pediu), onde eu conseguiria conciliar o futebol com o trabalho, já que pra estar no time eu teria que estar na minha melhor forma, era um sonho, eu queria muito e consegui, estava lá dentro, vestindo a camisa do meu clube do coração ( gremistas entenderão essa paixão ).
Eu não era nenhuma jogadora excepcional, eu não era a melhor da equipe, talvez nem a primeira opção da reserva, mas estava sempre lá, pronta pra quando precisarem e precisaram.

Nunca fui de exigir muito, eu só queria meu espaço, queria fazer parte daquele time, que era incrível, que lutava todos os dias por um espaço dentro do clube, treinavamos todos os dias a noite, era puxado , cansativo, mas prazeroso.

Até que em 15 de outubro de 2017 num mês chuvoso como agora, com os campos do CT alagados, nos mandaram para um treino em uma campo sintético (no zequinha ), em uma bola cruzada, quando dei meu máximo pra recuperar, veio a torção do joelho e a lesão. Ali naquele momento minha vida mudaria muito, muita coisa viria pela frente.

A lesão foi diagnosticada pelos médicos do clube, rompimento total do ligamento cruzado e deslocamento do menisco. Entrei em desespero, sem nem saber que o pior estáva por vir.

Agora a luta era outra, conseguir a cirurgia e o tratamento da lesão, a final é o "GRÊMIO", um clube grande, uma estrutura gigante, meninos da categoria de base já tinham este tratamento. Mas não é tão fácil assim, não para o futebol feminino, não quando tu não é a estrela do time, não quando tu é simplesmente NADA pra eles.

Em nenhum momento eles pensaram ou se prestaram em saber como eu estava, como eu estava trabalhando e me sustentando, já que meu joelho estava do tamanho da minha coxa.
Foi desumano, desrespeitoso o que eles fizeram comigo. E me diz uma coisa é se fosse um filho deles? E se fosse a estrela do time? Seria assim? Mas eu já não esperava qualquer sentimento de humanismo deles, só queria meu joelho do mesmo jeito de quando eu entrei.

Então fui atrás do técnico, que me mandou ir atrás do coordenador, que mandou eu ir atrás do diretor e o diretor J.T ,me mandou procurar o SUS, isso mesmo o SUS , nada contra este sistema , mas estamos falando do "GRÊMIO " clube de tamanha grandeza.
Eu fui atrás do SUS mesmo sabendo que não era o correto, não ia parar de correr atrás dos meus direitos, mas também não podia ficar com o meu joelho daquele jeito, então deixei tudo pronto pelo SUS.

A promessa do diretor era esperar a virada da temporada, que teríamos plano médico, que teria uma estrutura melhor ( me enrolaram), eu já não acreditava mais, então fui atrás do PRESIDENTE do clube, que por sua vez não deu a mínima pra situação e me pediu pra falar com o diretor.

Dois anos se passaram e eu me e encontro da mesma forma, a dois anos na fila do SUS para realizar a cirurgia. Hoje eu não posso mais fazer o que mais amo ( jogar futebol) , hoje eu já nao faço mais coisas simples do dia a dia, como me agachar ou pegar alguma coisa do chão, tomo muito cuidado com qualquer desnível de ruas e calçadas, pois por qualquer destes motivos meu joelho sai do lugar. Arrumar emprego foi difícil, fazer rotinas do dia a dia e difícil, essa lesão mexeu com a minha integridade física e psicológica.

O pior é manter o psicológico ,sabendo que tu não tem idéia de quando vai poder sentir aquele frio na barriga antes de uma grande partida de campeonato, ou um simples jogo de domingo com os amigos so pra se divertir.

Não tá sendo fácil, mas Deus sabe de todas as coisas. A justiça de Deus é infalível, dessa não ninguém pode fugir."

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